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Ai Weiwei

Por Patricia Figueiredo

Ao longo da história da humanidade arte e política sempre caminharam juntas. A arte retrata desde a antiguidade as sociedades que se formaram e registra até os dias de hoje as inquietações existentes no mundo atual com o objetivo de causar reflexão por meio de sua linguagem. Como Gustave Coubert e Honoré Daumier que  expressaram por meio de sua arte uma denúncia social e política na época da revolução francesa. E dentro de nossos dias atuais o maior representante dessa arte política é o artista chinês Weiwei. Dificilmente hoje, existe alguém, que mesmo não o conhecendo, não tenha as referências de seus trabalhos na memórias sobre os refugiados.

Weiwei causou polêmica com a fotografia de uma imagem que chocou o mundo, Aylan Kurdi, o menino sírio  afogado no Mediterrâneo. A foto causou sérias críticas ao artista e seu ego, mas o que poucas pessoas sabem é que Ai patrocinou um grande estúdio-oficina , onde artistas de várias nacionalidades e voluntários trabalharam em organizações humanitárias não governamentais na pequena ilha, Lesbos, onde chegavam diariamente mais de cinco mil pessoas fugindo da guerra e da pobreza. O resultado desse trabalho é “Human Flow”, uma grande produção na qual o artista mostra esse drama que assombra o mundo atual.

O tema, que já foi explorado pela imprensa de todo o mundo, ganha uma abordagem mais pessoal de Weiwei. Como sua família foi perseguida pelos políticos, ele mesmo conhece o que significa o deslocamento forçado. O filme mostra o depoimento de refugiados e imagens de 22 países. A “tragédia humanitária”, como o artista intitula, já expulsou de suas casas 65 milhões de pessoas, de acordo com dados das Nações Unidas. “As notícias sobre a crise migratória estão tão banalizadas que foi preciso buscar uma linguagem própria para o documentário, que sobrevivesse ao antes e o depois do filme ser feito. Era preciso encontrar formas de contextualizar e fornecer perspectiva histórica ao que estávamos filmando, porque o problema da migração ainda está em processo”, relata o artista. No documentário há trechos de poemas de autores de diversas origens, o que torna a narrativa poética. “O filme é feito com uma convicção profunda do valor dos direitos humanos. Nestes tempos de incerteza, precisamos de mais tolerância, compaixão e confiança nos outros, uma vez que somos apenas um só”, finaliza Weiwei.

Nascido  em 1957 em Pequim, esse artista é considerado hoje um dos principais símbolos da liberdade de expressão. Em suas mãos, a arte é instrumento de crítica e de informação, mobilizando sociedades contra todo poder que pretende silenciar pessoas, fatos e conhecimento. Com uma história pessoal sofrida , Weiwei passou (e ainda passa) na pele todas as agruras políticas do comunismo em seu país . Filho de um poeta perseguido pelo regime chinês, tinha um ano quando a família foi transferida para campos de trabalho. Cresceu em exílio no próprio país até, que em 1976, aos 19 anos, o fim da revolução cultural chinesa permitiu o seu retorno a Pequim. Entre os anos de 1981 a 1993 morou em Nova York , retornando a Pequim nesse mesmo ano em função da doença de seu pai. Ao longo de mais de duas décadas, tem guiado sua produção por um forte ativismo político. Começou abordando os abusos de poder na China e amplificou em escala global sua reivindicação pelas liberdades de expressão, pelos direitos humanos e pela democracia.

A fim de abrir caminho para o novo, ele acredita que é preciso ser capaz de destruir as coisas para se livrar do velho, como o fez em Han Dynasty Urn. “Esse trabalho incorpora o que Ai chamou de “readymade cultural”. O trabalho captura em fotos, Ai quando ele derruba uma urna cerimonial de 2.000 anos de idade, permitindo que ela se espatifasse no chão aos seus pés. Esse artefato não apenas possuía valor considerável, como também tinha valor simbólico e cultural. A dinastia Han (206 aC-220 dC) é considerada um período decisivo na história da civilização chinesa, e quebrar deliberadamente uma forma icônica daquela época equivale a jogar fora toda uma herança de significado cultural sobre a China. Alguns ficaram indignados com este trabalho, chamando-o de um ato de profanação. Ai respondeu dizendo: “O presidente Mao costumava nos dizer que só podemos construir um novo mundo se destruirmos o  antigo. ” Esta declaração refere-se à destruição generalizada de antiguidades durante a Revolução Cultural da China (1966-1976) e à instrução de que, para construir uma nova sociedade, é preciso destruir o si jiu (antigos): costumes antigos, hábitos, cultura e idéias. Ao deixar cair a urna, Ai solta as estruturas sociais e culturais que transmitem valor. É poderoso apenas porque alguém pensa que é poderoso e investe valor no objeto”, disse o artista.

Outra “ação” ou “ativação” que se transformou em um trabalho foi desencadeada pelo tratamento político do terremoto que atingiu a província chinesa de Sichuan em 2008, causando 69.000 mortes. Dentro desse universo de mortos haviam muitas crianças que estavam em suas escolas construídas de maneiras precárias. Weiwei exigiu que o governo listasse seus nomes, mas, diante do silêncio do estado, desenvolveu através do twitter uma associação civil com voluntários que visitaram as aldeias da região, buscando com as famílias das vítimas suas identificações . Um ano após o terremoto, o artista carregou o resultado em seu blog: 5.385 nomes. O blog foi fechado e ele, e várias outras pessoas, foram presas. O resultado desse trabalho intitulado Remembering, consistiu em 9.000 mochilas de escola (semelhantes aos que foram vistas entre as fotografias dos entulhos do terremoto ) que cobriram a fachada do Museu Haus der Kunst em Munique e que formaram a frase de uma das mães: “Ela viveu feliz nesta terra durante sete anos”.

Em 2011, quando embarcava no aeroporto de Pequim, foi preso novamente. Acusado de irregularidade na documentação, evasão fiscal e difusão de pornografia – por ter postado nudes –, teve seu estúdio invadido, confiscado e foi mantido em uma cadeia secreta pelo governo chinês, que sonegou informações sobre seu paradeiro. A repercussão gerou campanhas internacionais em apelo à soltura, o que ocorreria 81 dias depois. Ai Weiwei permaneceu sob vigilância e proibido de sair da China até 2015, quando teve o passaporte devolvido.

Desde então, vive exilado na Alemanha, como um refugiado que evita retornar a seu país. Um refugiado privilegiado, como ele mesmo diz, mas que tem feito de sua posição de visibilidade um lugar de denúncia das injustiças sociais, das violações dos direitos humanos e da violência sistêmica dos conflitos que assolam o mundo. Os questionamentos dos valores tradicionais, são as maiores perguntas que esse artista nos dá através de seu trabalho. Quais os nossos valores mais tradicionais? Quanto existe de valores tradicionais e habituais impregnados em nossas ações que nos impedem de enxergarmos outras realidades, outras percepções? . A quebra de tradições,  pode gerar desconforto ou liberdade. Tudo é uma questão de perspectiva. Entender que podemos mudar nosso olhar desafiando antigas tradições é estar aberto a crescer. Parafraseando o artista termino o texto com uma de suas frases que eu amo “Um pequeno ato vale mais que um milhão de pensamentos”.

Até a próxima!