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Carta a uma artista

Por Patricia Figueiredo

Como parte do curso que estou fazendo de arte no Paço, um dos desafios era escrever uma carta para alguém que quisessemos falar sobre arte. Achei bacana compartilhar com vocês.
Aqui vai a minha para uma artista fenomenal brasileira: Lygia Clark

Querida Lygia,

Em sua carta a Mondrian, você escreveu que talvez um dia pudesse também dar seus olhos, sua solidão e sua teimosia a alguém que fosse artista como você é.
Decidi me apropriar dessas palavras e de fragmentos de uma obra, que foi para mim um legado. Como admiro sua coragem de sempre ter se mostrado tão inteira!
E dessa coragem me aproveitei um pouquinho para escrever essa carta para você.
Além de artista sou arquiteta e sei da admiração que sempre teve pela arquitetura.
E eu, particularmente vejo em você uma arquiteta nata que conseguiu através dos seus trabalhos os bichos, criar estruturas fantásticas. Mil vezes parabéns!
Trabalho com colagem. Não sei se você gosta.
Mas a mim atrai pela possibilidade infinita de escolha. E pela ambiguidade que sua poética me traz. A colagem é separação através do corte. A colagem é união através das partes separadas pelo mesmo corte.
Gostaria imensamente de poder lhe mostrar meus trabalhos.
De conversar sobre os caminhos, os meus, que em vários momentos de suas cartas se confundem com os seus.
Estou fazendo um curso fantástico, acho que você iria adorar. Saiba que você está muito presente entre nós, através de suas cartas, de suas referências e das obras que nos fazem refletir sobre essa busca sempre pelo outro lugar. Lugar esse que após ser conquistado não nos pertence mais.
Você ensina através da sua obra e seu caminhar a aceitarmos essa inquietude que é nata em nós artistas e que nunca enquanto estivermos vivos, deixará de pulsar.
A integridade em sua atitude de entrelaçar afetividade a sua criação, é uma lição.
Seu olhar atento ao outro, e seu poder de observação de si mesma, apazigua as inquietações de todos nós.
Você dá nome e sentido aos abismos, para depois criar pontes que os aproximam.
A carta que você escreve ao seu filho, para mim hoje virou referencia, faz bem ouvir .
É de uma poesia sem limites quando você nos fala, (sim, escuto sua voz, tamanha a força das palavras que você escreve..) que podemos olhar nossos próprios pés, mas não nossa própria imagem, está nós apenas percebemos.
Quando você diz para aceitarmos o provisório porque o processo jamais pode parar e que a vida pode vir a ser uma realidade extraordinária desde que estejamos voltados para nossa procura interior, suas palavras me incentivam a jamais desistir.
Cada obra de arte que produzimos é um espelho, onde vemos nosso próprio reflexo.
A arte abre caminhos, a maioria dos quais nem imaginávamos existir.
A sua arte em especial me leva além.
Querida Lygia, embora você tenha escrito que o artista é um solitário, e mesmo concordando plenamente com essa premissa, através de você, de suas cartas e de seus trabalhos, me sinto acompanhada nessa solidão!

Muito obrigada por sua força , intensidade, clareza e sua arte!

Beijos e até a próxima!

Sua fã de carteirinha,

Patricia Figueiredo

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O grande equilibrista

Alexander Calder, conhecido como Sandy, nasceu em 22 de julho de 1898 em Lawton – Pensilvânia. Filho de pais artistas, seu pai era, também, um escultor e sua mãe uma pintora, foi convivendo com esse universo desde cedo que acabou incentivado a criar. Construiu objetos desde muito jovem, e sua primeira ferramenta de arte conhecida foi um alicate. Aos oito anos, Calder estava criando jóias para as bonecas de sua irmã com contas e fios de cobre. Nos anos seguintes, enquanto sua família se mudava para Pasadena, Filadélfia, Nova York e São Francisco, ele criava pequenas figuras de animais e tabuleiros de jogos de madeira e latão. Aos nove anos de idade ele fez um pequeno cão e um pato, cortados e moldados de folha de latão para presentear seus pais no natal. Apesar dessa facilidade, Calder não se imaginava um escultor, seu interesse na confecção dessas peças não o levou à arte, mas à engenharia mecânica e cinética aplicada, que ele estudou no Instituto de Tecnologia de Stevens em Hoboken, Nova Jersey (1915-1919)
Depois de se formar na faculdade, Calder tentou muitos empregos: engenheiro automotivo, desenhista e engenheiro hidráulico. Somente em 1922, voltou a se interessar por arte e fez aulas de desenho na New York Public School e no ano seguinte, pintura na Arts Students League (1923-1926). Começou a trabalhar como ilustrador para o National Police Gazette. Lá após ser designado para ilustrar as performances dos irmãos Ringling e Barnum & Bailey Circus começou a se interessar pelo universo circense. Em 1926, mudou-se para Paris onde começou a fazer os brinquedos e figuras em movimento que o fizeram criar o Circo de Calder ,objeto pelo qual ele tornou-se popular no mundo da arte. No circo, ele fazia várias performances, em que colocava em movimento os muitos personagens e animais diferentes que havia criado. Ele também começou a usar arame para produzir retratos lineares e esculturas figurativas. Em Paris, Calder conheceu Joan Miró, que se tornou uma importante influência e amigo próximo. Frequentemente alternava seu estúdio entre Nova York e Paris. Em uma de suas muitas viagens de barco transatlântico, ele conheceu Louisa James, com quem se casou em 1931. No final da década de 1920, Calder criou pinturas a óleo mais figurativas, mas uma visita ao estúdio de Piet Mondrian em 1930 foi decisiva para que Calder passasse da figuração para a abstração permanentemente. Ao entrar no estúdio, Calder fixou-se nos retângulos coloridos que cobriam uma das paredes: ele disse que gostaria de fazê-los se mover fisicamente. A partir daí se concentrou em encontrar uma maneira de fazer com que a cor abstrata se movesse pelo espaço. Um ano depois, ele expôs seus primeiros trabalhos e produziu suas primeiras esculturas mecanizadas inovadoras, pioneiras na arte cinética. Marcel Duchamp nomeou essas obras de “mobiles”, um termo que também abrangia as esculturas subsequentes criadas por Calder, que dependiam somente do movimento do ar. – a sua arte, nas palavras de Marcel Duchamp, “era a sublimação de uma árvore ao vento”.
Até o final da década de 1930, ele continuou a encenar performances do Circo de Calder.
O artista mudou-se para Connecticut em 1933, onde comprou uma fazenda em Roxbury para ter espaço para criar trabalhos pendurados e esculturas ao ar livre cada vez maiores. Nessa fazenda nasceu sua primeira filha, Sandra, no ano de 1935 e em seguida a sua segunda filha, Maria, em 1939. Nesse mesmo ano o Museu de Arte Moderna de Nova York encomendou a Calder a criação das esculturas a grande Armadilha da Lagosta e da Cauda do Peixe.

Em 1948 viajou à América do Sul e novamente em 1959. Nessa última ocasião, visitou o Brasil, onde expôs no Museu de Arte de São Paulo.
Calder ocupa lugar especial entre os escultores modernos. Foi o primeiro a explorar o movimento na escultura e um dos poucos artistas a criar uma nova forma, através dos stábiles, sólidas esculturas fixas, e dos móbiles, placas e discos metálicos unidos entre si por fios. Dois meses após sua morte em novembro de 1976, Calder foi condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade nos EUA.
Sua arte é única porque conseguiu dar uma leveza a materiais que por si só são pesados. Conseguir esse equilíbrio foi uma maneira poética que o artista encontrou de nós mostrar e provar que com equilíbrio conseguimos coloca no mesmo espaço o leve e o pesado…e que de acordo com as circunstâncias a beleza aflora sempre que estamos dispostos a vê-la .
Em suas próprias palavras … “ O que quero dizer é que a ideia de corpos destacados flutuando no espaço, de diferentes tamanhos e densidades, talvez de diferentes cores e temperaturas, e cercado e entremeado de tufos de gás, e alguns em repouso, enquanto outros se movem de maneira peculiar, parece-me a fonte ideal de forma “.

Até a próxima

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Miró e a arte onírica

Por Patricia Figueiredo

Pelo momento político atual que estamos vivendo, hoje me veio à mente um artista que por ter nascido e vivido na Europa entre os períodos da primeira e segunda guerra e subsequentemente ter sido impactado pelo governo de Franco, levou para algumas telas suas angústias, medos  e presságios dessa época tão conturbada no mundo. Mas Miró nem sempre foi considerado um pintor político, no sentido amplo ou restrito. Ele não foi um criador de manifestos ou um signatário de petições; ele não foi dado a um gesto provocativo como seu contemporâneo Salvador Dali, nem perseguiu suas paixões a todo custo, como seu antigo mentor Picasso. Durante a maior parte da segunda metade de sua longa vida, Miró pintou em seu estúdio em Palma, Maiorca, traçando um curso único entre os movimentos da pintura pós-guerra, e seus devaneios internos.

Joan Miró nasceu na Espanha em 1893 em uma família de artesãos. Seu pai, Miguel, era relojoeiro e ourives, enquanto seus avós eram marceneiros e ferreiros. Talvez por influência de um comércio artístico de sua família, Miró tenha desenvolvido sua aptidão pelo desenho desde muito cedo. Apesar de seu desejo declarado de seguir uma carreira nas artes, a mando de seus pais, ele frequentou a Escola de Comércio entre  1907 e 1910. Sua incursão relativamente breve no mundo dos negócios, caracterizada pelo estudo constante, incutiu um forte senso de ordem e uma ética de trabalho muito forte em Miró, mas a um custo muito alto. Após contrair febre tifóide, que quase o matou, sofreu um colapso nervoso. Miró então, abandonou sua carreira de negócios e subseqüentemente dedicou-se totalmente à arte.

Em 1912,  se matriculou em uma academia de arte em Barcelona. A escola ensinou a Miró sobre os movimentos de arte moderna na Europa Ocidental e apresentou-o aos poetas catalães contemporâneos. Entre 1912 e 1920, Miró pintou naturezas-mortas, nus e paisagens. Seu estilo durante este período em seu início de carreira tem sido referido como “realismo poético”. Foi nessa fase de sua carreira que  se interessou pelas cores ousadas e brilhantes dos pintores franceses fauves e pelas composições fraturadas dos cubistas.

Em 1919, Miró mudou-se para Paris para continuar seu desenvolvimento artístico. Devido a uma considerável dificuldade financeira, sua vida lá foi difícil no começo. Ao falar sobre ela durante os primeiros e magros anos, o artista contava que quando voltava para seu estúdio, na Rue Blomet à noite, por não ter jantado, quando ia para cama, essa privação física animava sua  imaginação o fazendo ver coisas no teto, que ele anotava num caderno e as usava posteriormente em suas pinturas. Miró foi atraído pelos movimentos Dada e Surrealista. Tornou-se amigo do escritor surrealista André Breton, formando um relacionamento que durou muitos anos. Enquanto os surrealistas experimentavam o irracional na arte e na escrita, a arte de Miró manifestava essas qualidades oníricas, tornando-se cada vez mais biomórfica,( A Arte biomórfica ou, Biomorfismo, é um estilo de pintura e escultura baseado em curvas ou motivos que evocam seres vivos) enigmática e inovadora.

Miró casou-se com Pilar Juncosa em 1929, e sua única filha, Dolores, nasceu em 1931. Sua carreira floresceu durante esse período. Em 1934, a arte de Miró começou a ser exibida na França e nos Estados Unidos. Teve sua primeira retrospectiva  no MoMA em Nova York com grande sucesso. As formas simplificadas de Miró e seu impulso vitalício em direção à experimentação inspiraram uma geração de artistas americanos, os expressionistas abstratos.

Na década de 1950, Miró começou a dividir seu tempo entre a Espanha e a França. Uma grande exposição de 60 obras foi realizada na Gallerie Maeght em Paris e, posteriormente, na Galeria Pierre Matisse em Nova York em 1953. Em meados dessa década, Miró começou a trabalhar em uma escala muito maior. Os anos 60 foram uma época altamente criativa  para Miró, onde ele rompeu com seus próprios padrões, em alguns casos revisitando e reinterpretando alguns de seus trabalhos mais antigos. Embora ele nunca tenha alterado a essência de seu estilo, seu trabalho posterior foi reconhecido como mais maduro e refinado em termos de forma. Em 1974, ele foi contratado para criar uma tapeçaria para o World Trade Center de Nova York, demonstrando suas conquistas como artista de renome internacional, bem como seu lugar na cultura popular. Ele recebeu um grau honorário da Universidade de Barcelona em 1979.

Completamente  ativo durante sua velhice, Miró trabalhou até sua morte em 1983. Ele morreu em sua casa ,um ano depois de completar Woman and Bird, uma grande escultura pública para a cidade de Barcelona. Esse trabalho foi, em certo sentido, o culminar de uma carreira prolífica tão profundamente integrante para o desenvolvimento da arte moderna.

Voltando ao cunho político de seu trabalho, posso dizer que Miró usou seus pincéis como armas. Através da arte  encontrou sua maneira de se expressar e lutar. Em 1979, quatro anos após a morte de Franco, ele disse em um discurso na Universidade de Barcelona que “ser capaz de dizer algo, quando a maioria das pessoas não tem a opção de se expressar, obriga esta voz a ser de alguma forma profética … quando um artista fala em um ambiente em que a liberdade é difícil, ele deve transformar cada uma das suas obras em uma negação das negações, em uma desvinculação de todas as opressões, todos os preconceitos e todos os valores falsos estabelecidos “. Quando indagado, sobre o que ele havia feito para promover a oposição ao ditador, que governou a Espanha por quase 40 anos, o artista respondeu simplesmente: “Coisas livres e violentas”.

“Mais importante do que a obra de arte propriamente dita é o que ela vai gerar. A arte pode morrer; um quadro desaparecer. O que conta é a semente”-Joan Miró.

Como Miró, que nós saibamos no dia de hoje usar nossas mãos para plantar essa semente  onde todos os brasileiros sejam honrados e dignos de uma vida melhor,

Até a próxima!

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O mestre do desenho

A força da mão produz o traço . A mão é criadora e tem vida própria. Kentridge disse numa entrevista que o desenho permite a mão pensar por si só.  William Kentridge (nascido em 28 de abril de 1955) é um artista sul-africano ,filho de dois advogados anti-apartheid, aprendeu cedo a questionar imposições estruturais. Em 1976, ele se formou em Política e Estudos Africanos na Universidade de Witwatersrand, e  estudou arte na Fundação de Arte de Joanesburgo até 1978. Lá, ele conheceu Dumile Feni e foi muito influenciado por seus desenhos. Ele também ficou conhecido por suas estampas, desenhos e filmes de animação. Estes são construídos pela filmagem de um desenho, fazendo rasuras e alterações, e filmando-o novamente. Ele continua esse processo meticulosamente, dando a cada mudança no desenho um quarto de segundo a dois segundos de tempo na tela. Um único desenho será alterado e filmado dessa maneira até o final de uma cena. Estes desenhos semelhantes a palimpsesto ( designa um pergaminho ou papiro cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Tal prática foi adotada na Idade Média, sobretudo entre os séculos VII e XII, devido ao elevado custo do pergaminho. A eliminação do texto era feita através de lavagem ou, mais tarde, de raspagem com pedra-pomes) são posteriormente exibidos juntamente com os filmes como peças de arte acabadas. Durante os anos 80, Kentridge foi diretor de arte de séries de televisão e longas-metragens. Ele então começou a fazer desenhos animados desenhados à mão. Apesar de não se referir diretamente à era segregacionista, ele adquiriu reconhecimento internacional como um artista sul-africano cujo trabalho acompanha uma rota pessoal após o apartheid e o colonialismo. Seus filmes são ambientados na paisagem industrial e mineira super explorada em Joanesburgo, que representa o legado de um período de abuso e injustiça. Em uma conversa com o crítico de arte Okwui Enzewor, Kentridge expressou: “O desenho não é diferente da estrutura e da evolução da paisagem sul-africana”. Desde 1989 ele fez 9 filmes que acompanham o fim do sistema do apartheid, as primeiras eleições e o trabalho Comissão da Verdade e Reconciliação, na tentativa de mostrar as complexas tensões em uma memória pós-colonial. Entre eles estão “Joanesburgo, a segunda maior cidade depois de Paris”, “Ubu diz a verdade” e “Steroscope”. Além do cinema e do desenho, uma parte importante de sua carreira foi dedicada ao teatro. De 1975 a 1991 ele foi membro da Junction Avenue Theatre Company, em Joanesburgo e Soweto. Em 1992, ele começou a colaborar como cenógrafo, ator e diretor da Handspring Puppet Company. A empresa cria peças multimídia usando fantoches, atores ao vivo e animação. Executa peças teatrais como Woyzeck, Fausto e o Rei Ubu para refletir sobre o colonialismo e a luta humana entre o passado, a modernidade e a ética. Como alguém que é etnicamente judeu na África do Sul, Kentridge tem uma posição única como observador terceirizado. Kentridge desenvolveu uma capacidade de se afastar um pouco das atrocidades cometidas sob os regimes posteriores. Os fundamentos da condição sócio-política e da história da África do Sul são fatores que sempre influenciaram seu trabalho. Aspectos da injustiça social que ocorreram ao longo dos anos na África do Sul muitas vezes se tornaram alimento para as peças de Kentridge. Casspirs Full of Love, visível no Metropolitan Museum, parece ser nada mais do que cabeças em caixas para o espectador médio americano, mas os sul-africanos sabem que um casspir é um veículo blindado usado para acabar com tumultos, uma espécie de tanque de guerra. O título, Casspirs Full of Love, escrito ao lado da impressão, é sugestivo da narrativa e é oximorônico (Oximoro é uma figura de linguagem que coloca palavras de significados opostos lado a lado, criando um paradoxo que reforça o significado das palavras combinadas) Um casspir cheio de amor é muito parecido com uma bomba que explode de felicidade – é uma improbabilidade intangível. O propósito de uma máquina como essa é instilar “paz” à força, mas Kentridge aponta para o fato de que ela foi usada como uma ferramenta para impedir que os nativos de classe baixa tomassem poder e dinheiro coloniais. Kentridge é de linhagem expressionista: a forma geralmente faz alusão ao conteúdo e vice-versa. O sentimento que é manipulado pelo uso de paleta, composição e mídia, entre outros, freqüentemente desempenha um papel igualmente vital no significado geral como o sujeito e a narrativa de um determinado trabalho. É preciso usar as próprias reações viscerais, assim como as habilidades interpretativas para encontrar significado no trabalho de Kentridge, muitas das quais revelam muito pouco conteúdo real. Devido às qualidades esparsas, ásperas e expressivas da caligrafia de Kentridge, o espectador vê um quadro sombrio à primeira vista, uma impressão que se perpetua à medida que a imagem ilustra uma situação vulnerável e desconfortável. “Eu estou interessado em uma arte política, isto é, uma arte de ambigüidade, contradição, gestos incompletos e final incerto – uma arte (e uma política) na qual o otimismo é mantido sob controle e o niilismo à distância”. Ao longo do percurso histórico da humanidade arte e política caminharam juntas, seja por conveniência ou por dependência. A arte retrata desde a antiguidade as sociedades que se formaram e registra até a atualidade as inquietações existentes no nosso cotidiano com o objetivo de causar reflexão por suas diferentes linguagens. A arte sempre servirá como uma importante ferramenta para o nosso melhor entendimento sobre os aspectos sociais, temos muito a aprender quando não apenas vemos as obras, mas quando queremos  e estamos dispostos a enxergar a carga de conhecimentos que as suas linguagens desejam nos oferecer. Kentridge definitivamente é um exemplo de como essa junção pode ocorrer e fazer diferença no mundo,

Até a próxima,

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Exposição Coletiva em Madrid

Por Patricia Figueiredo

Santana Art Gallery dirigida pelo artista  Miguel Angel Marrero Santana foi criada com a intenção de proporcionar um Um espaço de encontro intercultural, que aposta na liberdade de expressão, ajudando a transformar e elevar a essência do ser humano.

Em cartaz nesse mês a Exposição “Miradas Creativas” até 20 de outubro, em Paseo de la Castellana, 190, Madrid , onde nossa colunista Patricia Figueiredo estará expondo.

Se estiver em Madrid, vale a visita!

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Readymade você sabe o que é?

Por Patricia Figueiredo

Ator, pintor, diretor de cinema, poeta, escultor, bibliotecário, roteirista, e exímio jogador de xadrez ….com vocês : Marcel Duchamp. Nascido no dia 28 de Julho de 1887, esse fantástico artista, foi criado na Normandia, em uma família de artistas. Seu pai era prefeito de Blainville e sua mãe uma pintora que retratava o interior da França, através de paisagens. O tempo da família, incluindo Duchamp e mais seis irmãos, era gasto jogando xadrez, lendo, pintando e tocando música. Uma das primeiras obras de arte de Marcel, Landscape at Blainville, pintada aos quinze anos, refletia o amor de sua família por Claude Monet.  Seus dois irmãos mais velhos, foram estudar pintura em Paris, e em 1904, Duchamp se juntou a eles na cidade luz para também estudar pintura na Académie Julian. Seus primeiros desenhos evidenciam seu interesse contínuo por trocadilhos visuais e verbais. Paris, no início dos anos 1900, era o lugar ideal para Duchamp se familiarizar com as tendências modernas da pintura. Duchamp estudou o fauvismo, o cubismo e o impressionismo e foi cativado por novas abordagens de cor e estrutura. Ele se relacionava acima de tudo com a noção cubista de reordenar a realidade, em vez de simplesmente representá-la. No início de sua carreira, Duchamp desenvolveu um gosto pelo fascínio misterioso do tema simbolista, como a mulher em sua obra femme fatale. Esse profundo interesse pelos temas e exploração da identidade sexual e do desejo levaria Duchamp ao dadaísmo e ao surrealismo. Em 1911, Marcel Duchamp, então com 25 anos, conheceu Francis Picabia e assistiu com ele e Guillaume Apollinaire uma adaptação teatral de Impressions d’Afrique. Essa experiência, e os enredos e trocadilhos inventivos de Roussel em particular, causaram uma profunda impressão em Duchamp. Ele observou que, pela primeira vez, ele “sentiu que, como pintor, era muito melhor ser influenciado por um escritor do que por outro pintor”. Essa descoberta o possibilitou de buscar novos horizontes entre gêneros diferentes. Essa experiência, levou o artista a desenvolver uma abordagem eclética da arte.

Poucos artistas podem se orgulhar de ter mudado o curso da história da arte da maneira que esse artista extraordinário fez. Ao desafiar a própria noção do que é arte, seus primeiros “readymades” (Cunhado por Duchamp, o termo “readymade” veio designar objetos cotidianos produzidos em massa, retirados de seu contexto habitual e promovidos ao status de obras de arte pela mera escolha do artista. Um ato performativo, tanto quanto uma categoria estilística, o readymade tinha implicações de longo alcance para o que pode legitimamente ser considerado um objeto de arte.) enviaram ondas de choque através do mundo da arte que ainda podem ser sentidas hoje. A preocupação constante de Duchamp com os mecanismos do desejo e da sexualidade humana, bem como com sua predileção por jogos de palavras, alinha seu trabalho com o dos surrealistas, embora ele tenha se recusado a se afiliar a qualquer movimento artístico específico em si. Em sua insistência de que a arte deveria ser dirigida por idéias acima de tudo, Duchamp é geralmente considerado o pai da arte conceitual. Ele permaneceu comprometido, no entanto, com o estudo da perspectiva e da ótica que sustentam suas experiências com dispositivos cinéticos, refletindo uma preocupação constante com a representação do movimento e das máquinas comuns aos artistas futuristas e surrealistas da época.  Sua pintura, Nude Descending A Staircase, ilustram esse interesse pelo maquinário e sua conexão com o movimento do corpo através do espaço, implícito no modernismo inicial. Duchamp acreditava que a arte deveria ser uma expressão da mente, e não do olho ou da mão. Ele inaugurou uma nova era resumida pela afirmação de Joseph Kosuth de que “toda arte (depois de Duchamp) é conceitual (na natureza) porque a arte só existe conceitualmente”.

A crítica radical de Duchamp às instituições de arte fez dele uma figura cultuada por gerações de artistas que, como ele, se recusaram a seguir o caminho de uma carreira artística comum. Embora seu trabalho tenha sido admirado por seu amplo uso de materiais artísticos e mídias, é o impulso teórico da sua produção eclética, que impactou os movimentos de vanguarda do século XX e artistas individuais que reconheceram abertamente sua influência.

Seu horror pela repetição, explica o número relativamente pequeno de obras que Duchamp produziu em toda sua carreira.

Em 1915, Duchamp imigrou para Nova York ( onde acabou falecendo anos mais tarde em 2 de outubro de 1968), concebeu e fabricou vários readymades que foram projetados para mostrar o absurdo da canonização da prática artística de vanguarda. O mais notório dos readymades, Fountain foi submetido à Sociedade de Artistas Independentes de 1917 sob o pseudônimo R. Mutt. O R inicial representava Richard, gíria francesa para “sacolas de dinheiro”, enquanto Mutt se referia à JL Mott Ironworks, a empresa sediada em Nova York, que fabricava o mictório de porcelana. Depois que o trabalho foi rejeitado pela Sociedade, alegando que era imoral, os críticos que o defenderam contestaram esta afirmação, argumentando que um objeto foi investido com um novo significado quando selecionado por um artista para exibição. Testando os limites do que constitui uma obra de arte, Fountain estabeleceu novos fundamentos. O que começou como uma brincadeira elaborada projetada para zombar da arte de vanguarda americana, provou ser uma das obras de arte mais influentes do século XX. O que ele nos deixa de mais importante é a capacidade da crença em algo além do que se pode ver. Além do convencional. Dizia que gostava da palavra crer. Porque em geral,  ele dizia “quando alguém diz eu sei, não sabe, acredita.” Duchamp acreditava que a Arte era a única forma de atividade pela qual o homem se manifestava como indivíduo. Achava que só pela arte podia  superar o estado animal, porque a arte desembocava em regiões que nem o tempo nem o espaço dominam. ‘Viver é crer — ao menos é isto que eu creio” (Marcel Duchamp).

Até a próxima

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Este não é um artigo sobre arte

Pintor de imagens insólitas, e icônicas onde existe um contraste entre o tratamento realista dos objetos e a atmosfera irreal onde eles estão inseridos, Magritte é o pintor surrealista belga que nos fala através de metáforas.

Imagens como o chapéu coco, castelo, rocha, janela e cachimbo entre outras mais, detém uma gama enorme de significados e diversas interpretações que nos fazem viajar. Nascido em Lessines, Bélgica em 1928, Rene Magritte era o mais velho dos  três irmãos. Seu pai era um industrial e sua mãe era uma chapeleira bastante renomada, ( talvez dai tenha vindo a obsessão do artista pelo chapéu coco).  Seu desenvolvimento  como artista foi influenciado por dois eventos significativos em sua infância; o primeiro foi a visão de um artista pintando em um cemitério, sobre o qual mais  tarde escreveria: “Eu o encontrei, no meio de algumas colunas de pedra quebradas e folhas empilhadas, um pintor que tinha vindo da capital e que me parecia estar fazendo mágica.” O segundo evento crucial foi o suicídio de sua mãe em 1912, quando Magritte tinha 14 anos. De acordo com relatos da época, Magritte estava presente quando o corpo de sua mãe foi retirado do rio,  onde seu rosto estava completamente coberto por seu vestido branco. Embora não saibamos se isso de fato ocorreu  a imagem  de uma cabeça  escondida por um pano que contorna o contorno do rosto, reaparece em diversas obras do artista. Magritte começou a pintar em 1915 e se matriculou na Académie des Beaux-Arts em Bruxelas em 1916. Victor Servranckx, seu amigo, o apresentou ao Futurismo, ao Cubismo e ao Purismo. Em particular, Magritte foi atraído para o trabalho de Jean Metzinger e Fernand Leger, ambos os quais tiveram muita influência sobre seus  primeiros trabalhos. Casou-se em 1923 e de  1927 a 1930, Magritte viveu em Paris onde fez parte do grupo de surrealistas parisienses com Mac Ernst e Salvador Dali, liderado por André Breton. Ele começou a incorporar formas orgânicas mais ambíguas em seu trabalho e a experimentar temas essencialmente surrealistas, como a loucura e a histeria. Também foi em Paris que Magritte começou a utilizar  palavras e a linguagem em suas pinturas. Em 1930,  a Galerie le Centaure que o representava fechou suas portas e Magritte retornou a Bruxelas onde trabalhou com publicidade comercial. No final dos anos 1930, no entanto, o crescente interesse de colecionadores internacionais, incluindo Edward James em Londres, o levou à maior independência financeira, e ele finalmente foi capaz de abandonar o trabalho comercial quase completamente e se dedicar a pintura.

René Magritte praticava tanto o surrealismo realista, como o realismo mágico. Começou a imitar a vanguarda, mas precisava realmente de uma linguagem mais poética e viu-se influenciado pela pintura metafísica de Giorgio de Chirico. A qualidade ilustrativa dos quadros de Magritte resulta muitas vezes em um poderoso paradoxo: imagens que são belas em sua clareza e simplicidade, mas que também provocam pensamentos inquietantes. Eles parecem declarar que não escondem um mistério e, no entanto, também são maravilhosamente instigantes. Como brilhantemente descreveu David Sylvester, biógrafo de Magritte, suas pinturas induzem “o tipo de reverência sentida em um eclipse”.

Os homens de chapéu-coco que aparecem frequentemente nas fotos de Magritte podem ser interpretados como autorretratos. Retratos da esposa do artista, Georgette, também são comuns em seu trabalho, assim como vislumbres do  apartamento do casal em Bruxelas. Embora isso possa sugerir conteúdo autobiográfico nas fotos de Magritte, é mais provável que aponte para as fontes comuns de sua inspiração. É como se ele acreditasse que não precisamos procurar muito pelo misterioso, já que ele se esconde em todos os lugares da vida mais convencional. A Traição de Imagens é uma série pintada pelo artista na qual “isso não é um cachimbo” (Ceci n’est pas une Pipe),  ilustra esse artigo. Magritte habilmente destaca a lacuna entre linguagem e significado. Ele combinou as palavras e a imagem de tal maneira que  nos força a questionar a importância da frase, da palavra e da imagem ao mesmo tempo. “cachimbo”, por exemplo, não é mais um cachimbo de verdade, ele é a imagem de um cachimbo que pode ser fumado. Magritte provavelmente pegou emprestado o tema pipe do livro Vers une architecture (1923) de Le Corbusier,  mas ele também pode ter se inspirado em uma placa  que ele conhecia em uma galeria de arte, que dizia ” Ceci n’est pas de l’Art “. Essa pintura é o tema de uma famosa análise do livro de Michel Foucault. Magritte expressou suas dúvidas sobre as possibilidades de representar a realidade, questionando nossa própria percepção dela. A linguagem sempre foi importante para o pintor, que disse:

“Um título legitima um quadro completando-o”.

O trabalho de Magritte teve um grande impacto em vários movimentos que se seguiram à sua morte em 1967, em decorrência de um câncer no pâncreas, incluindo Pop, Conceptualismo e a pintura dos anos 80. Em particular, seu trabalho foi aclamado como um prenúncio de tendências futuras na arte por sua ênfase no conceito sobre a execução, sua íntima associação com a arte comercial e seu foco em objetos do cotidiano que eram frequentemente repetidos no espaço pictórico. É fácil entender por que artistas como Andy Warhol, Martin Kippenberger e Robert Gober citam Magritte como uma influência profunda.

Na verdade com suas pinturas Magritte nos dá asas para voar. Como ele mesmo declarou “Tudo o que vemos esconde outra coisa, sempre queremos ver o que está oculto pelo que vemos.”

 

Profundo e real.

 

Até a próxima

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O Rei conceitual

Por Patricia Figueiredo

Sol LeWitt foi um artista americano, responsável por lançar através de seu trabalho  as bases para as novas linguagens da arte minimalista e conceitual nos anos 60.

O que dizer da arte minimalista? Ela usa um número limitado de cores e privilegia formas geométricas simples, repetidas simetricamente. As obras minimalistas possuem um mínimo de recursos e elementos. Resumidamente é o famoso “menos é mais”.

Sobre arte conceitual, como o próprio nome indica, trata-se de uma expressão artística mais pautada nos conceitos, reflexões e ideias, em detrimento da própria estética (aparência) da arte. Em outras palavras, a arte conceitual é uma “arte-ideia” em detrimento da “arte-visual”, sendo o principal material da arte a “linguagem”. Diante disso, os artistas conceituais preocupam-se em criar reflexões visuais para seus espectadores.

Sol LeWitt ganhou um lugar na história da arte exatamente  por seu papel de liderança no movimento conceitual. Sua crença no artista como gerador de idéias foi fundamental na transição da era moderna para a pós-moderna. A arte conceitual, exposta por LeWitt como um ato intelectual e pragmático, acrescentou uma nova dimensão ao papel do artista que estava distintamente separado da natureza romântica do Expressionismo Abstrato. LeWitt acreditava que a idéia em si poderia ser a obra de arte, e sustentou que, como um arquiteto que cria um projeto para um prédio e então passa o projeto para uma equipe de construção, um artista deveria ser capaz de conceber um trabalho e então delegar sua produção real a outros ou nem teria a obrigação de fazê-lo. LeWitt disse certa vez: “Um arquiteto não sai com uma pá e cava sua base e coloca cada tijolo. Ele ainda é um artista”.

O trabalho de LeWitt variou de escultura, pintura e desenho a peças quase exclusivamente conceituais que existiam apenas como idéias ou elementos do próprio processo artístico. Filho de judeus russos que emigraram para os EUA no início do século, Sol LeWitt nasceu 9 de Setembro de 1928 em Hartford, Connecticut. Quando jovem, demonstrou uma propensão real à arte e, em particular, à criação de desenhos “humorísticos”. Depois de ser dispensado em 1951 da guerra da Coreia, LeWitt se mudou para New York, fez aulas de desenhos e depois um  estágio de design na revista Seventeen.

Mas foi  ao trabalhar no escritório de arquitetura de I. M. Pei em 1955 como designer gráfico que aprendeu como um processo arquitetônico funciona e a considerar arte como uma idéia  que poderia ser executada por outros. O refinado vocabulário de arte visual de LeWitt consistia em linhas, cores básicas e formas simplificadas. Para LeWitt, as instruções para produzir uma obra de arte tornaram-se o próprio trabalho; um trabalho não era mais necessário para ter uma presença material real, a fim de ser considerado arte. LeWitt forneceria a um assistente ou a um grupo de assistentes instruções para a produção de uma obra de arte. As instruções para estes trabalhos, sejam desenhos de parede em grande escala ou esculturas ao ar livre, eram deliberadamente vagas, de modo que o resultado final não foi completamente controlado pelo artista que concebeu o trabalho. Desta forma, LeWitt desafiou algumas crenças muito fundamentais sobre a arte, incluindo a autoridade do artista na produção de uma obra.

A arte, para LeWitt, poderia existir por si mesma. Significado não era um requisito. LeWitt foi um fervoroso defensor da comunidade artística. Sua disposição de trocar seu próprio trabalho com praticamente qualquer pessoa, seja artista amador ou profissional, incentivou uma espécie de rede de apoio nas artes visuais. Ele foi um dos fundadores da Printed Matter, uma organização sem fins lucrativos que promove as artes do livro e agora mantém um espaço de exposição no Chelsea. O estabelecimento do Fundo Sol LeWitt para o Obra de Artistas, possibilitado por uma generosa doação do artista, continua a apoiar a criação e exibição de arte pública na cidade de Nova York.

Suas esculturas de blocos de concreto ainda são exibidas em espaços públicos nos Estados Unidos, e o Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts terá uma retrospectiva abrangente de seu trabalho numa exposição até 2033. Na época de sua morte por complicações do câncer em 2007, LeWitt ainda estava no auge de sua carreira. Em 1969 publicou “Sentences on Conceptual Art, que transcrevo abaixo. Entendo que se lermos com atenção, a maioria das ideias podem ser usadas em varias áreas de nossa vida.

Boa reflexão!

  1. Julgamentos racionais repetem julgamentos racionais.
  2. Julgamentos ilógicos levam a novas experiências.
  3. Conceito e idéia são coisas diferentes. O primeiro implica uma direção geral enquanto o último são os componentes. As idéias implementam o conceito.
  4. Idéias em si podem ser uma obra de arte; estão em uma cadeia de desenvolvimento e podem finalmente encontrar alguma forma. Nem todas as idéias precisam ser concretizadas.
  5. As idéias não vêm necessariamente em uma sequência lógica. Podem partir em direções inesperadas, mas uma idéia deve necessariamente estar completa na cabeça antes que a próxima se forme.
  6. Para cada obra de arte que se concretiza existem muitas variações não concretizadas.
  7. As palavras de um artista a outro podem induzir uma cadeia de idéias – se estes compartilham o mesmo conceito.
  8. Geralmente entendemos a arte do passado aplicando as convenções do presente e, assim, entendemos mal a arte do passado.
  9. A arte bem sucedida transforma nossa compreensão das convenções ao alterar nossas percepções.
  10. Perceber idéias conduz a novas idéias.
  11. A percepção é subjetiva.
  12. Um artista pode perceber a arte de outrem melhor que a sua própria.

o é capaz de imaginar. Estes podem ser utilizados como idéias para novos trabalhos.

  1. O processo é algo mecânico e não deve ser outro. Ele deve seguir seu curso.
  2. Existem muitos elementos envolvidos numa obra de arte. Os mais importantes são os mais óbvios.
  3. Idéias banais não podem ser redimidas através de uma bela execução.
  4. É difícil estragar uma boa idéia.
  5. Quando um artista aprende bem demais o seu ofício, ele produz uma arte esperta.
  6. Essas frases são comentários sobre arte e não são arte.

A arte decididamente nos ensina sobre a vida…. se soubermos vê-la.

Até a próxima!

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O artista invisível

Quem é Banksy ? Se você souber a resposta…Parabéns!. Terá conseguido solucionar um mistério sobre a verdadeira identidade desse artista fantástico que desafia de uma maneira inteligente e sagaz, o sistema em que hoje vivemos. Mesmo não o conhecendo, com certeza algumas de suas imagens icônicas espalhadas pelo mundo serão facilmente reconhecidas por muitos de vocês. Ao longo dos anos, várias pessoas diferentes tentaram “desmascarar” Banksy, uma obsessão que parece ter dominado o mundo da arte. Um estudo realizado por cientistas da Universidade Queen Mary, em Londres, usando uma sofisticada técnica de análise estatística em criminologia para localizar infratores reincidentes, afirmou ter descoberto a identidade de Banksy. A pesquisa acadêmica identificou o grafiteiro anônimo como Robin Gunningham. Mas em 2016, um jornalista escocês afirmou que Robert Del Naja seria a verdadeira identidade de Banksy porque durante uma entrevista, o DJ Goldie usou o nome “Robert” para se referir à Bansky ao Podcast Distraction Pieces, do Reino Unido. Mas todas são especulações que nunca foram confirmadas.

Na verdade muito pouco se sabe sobre o próprio Banksy, pois ele se recusa a ser entrevistado e mantém sua identidade cuidadosamente mantida em segredo sendo considerado hoje um dos maiores artistas de rua do mundo. Suas obras estão em diversos países espalhadas na Austrália, Inglaterra, Estados Unidos, Jamaica e  Canadá. Passou um mês inteiro glamourizando a cidade de Nova York com sua arte de rua, onde atraiu a atenção de milhares de pessoas todos os dias. Esteve na Palestina e na Cisjordânia, onde deixou nove imagens fortes no Muro de Belém. Essas imagens foram um sucesso instantâneo e viralmente explodiram na Internet.

O que sabemos é que a mais de 20 anos o artista pseudônimo Banksy é um dos artistas contemporâneos mais bem sucedidos do Reino Unido, envolvido com a cena do graffiti e que trabalha com muitos tipos diferentes de mídia de arte de rua. Mas sua identidade permanece um mistério. “É uma obsessão curiosa essa necessidade das pessoas identificarem Banksy”, disse McCormick ao e-mail artnet News. O ser humano precisa de uma figura formal na tentativa de se identificar com ele. Na verdade o o que necessariamente precisamos é nos identificarmos com ideias…e de preferências boas.

McCormick acrescentou: “Ele provavelmente foi desmascarado inúmeras vezes, mas, como uma boa teoria da conspiração, a ficção improvavelmente ornamentada sempre será mais convincente do que a simples verdade mundana”.

A forma mais comum de arte de rua que Banksy usa são stencils. Estes são muitas vezes na forma de multi-camadas  ou combinados com outras fontes de mídia, como tinta spray. Ele também inclui materiais encontrados nas cidades, como placas de rua e outros objetos que agreguem valor ao transmitir sua mensagem, criando belíssimas instalações de arte de rua. O talento de Banksy reside na sua capacidade de usar humor (algumas vezes sarcástico) para levar os espectadores a contemplar uma seriedade subjacente em suas mensagens sobre capitalismo, publicidade, política e humanidade. Seu trabalho é forte e as imagens utilizadas falam por si só, juntamente com verdades ousadas e gritantes sobre nossos tempos, que o elevam a um papel de potente mediador social, através da arte.

Devido à volatilidade e impermanência das “telas”escolhida por Banksy, ou seja, o uso de suportes públicos improvisados nas ruas das cidades, ele permanece fiel à filosofia da arte de guerrilha, deixando claro com isso  que a mercantilização da arte não é uma maneira de validar um artista dentro de um setor social específico ou no mercado. Talvez o anonimato seja uma tentativa de remover o status de artista como celebridade e forçar o foco na obra de arte e ter a liberdade de poder se expressar sem ter que agregar uma história pessoal ao que ele produz. Como o graffiti é ilegal, o trabalho de Banksy continua a levantar questões na esfera social sobre as linhas entre arte pública e vandalismo. Se seu trabalho ao lado de um prédio se tornar uma peça colecionável e protegida porque outro artista de rua menos conhecido é preso por realizar uma ação semelhante? O que essa hipocrisia então, criada sobre sua fama significa ?

Em 2010 lançou um documentário sobre arte urbana “ Exit Through the Gift Shop”, seu primeiro filme (fantástico e imperdível) que estreiou no Festival de Filmes de Sundance, sendo no ano seguinte, indicado ao Oscar de Melhor Documentário.

No verão de 2015, Banksy organizou um projeto temporário de arte chamado Dismaland, um parque temático distópico construído na cidade litorânea de Weston-super-Mare, na Inglaterra. Preparado em segredo, o projeto revelou 10 novas obras de Banksy e as peças de outros 58 artistas. Vale a pena ver.

Um dos seus mais mais recentes trabalhos foi a construção de um hotel, Intitulado The Walled Off (que faz um trocadilho com o The Waldorf, luxuoso hotel de Manhattan, Nova York,

que é uma tentativa de desconstruir ideias sobre o significado social do turismo. Construído no meio da Palestina, o hotel tem todas as janelas dos quartos com vista para o muro que separa a cidade de Belém (essa mesma, onde Jesus nasceu) do resto de Israel. Quem se habilita? Embora eu seja fã de carteirinha assinada, um dos trabalhos de Banksy que mais gosto e muito apropriado ao nosso momento atual , onde uma onda de incivilidade tomou conta das redes sociais, é um  stencil , que apresenta um homem usando uma bandana obscurecendo seu rosto e um boné ao contrário . Sua postura é de uma pessoa prestes a lançar um coquetel molotov; ele está mirando e  pronto para lançar sua arma. No entanto, em vez de uma arma, ele segura um ramo de flores (que são a única parte do mural que aparece em cores). Esta peça está localizada em uma parede ao lado de uma garagem em Jerusalém, na estrada principal de Beit Sahour.

Ao substituir uma arma por um ramo de flores, Banksy está defendendo a paz em vez da guerra, uma mensagem de paz em uma área de alto conflito. O trabalho também traz a mensagem de que a paz vem com trabalho duro e ativo. O buquê de flores nesta obra, além de simbolizar a paz, a vida e o amor, também pode ser entendido como uma comemoração de vidas perdidas em um conflito religioso antigo. É um bom exemplo do uso de arte de Banksy para transmitir essa importante mensagem social.

Façamos Amor… não guerra…!

Fica a dica!

 

Até a próxima

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A arte de negociar a arte

por Patricia Figueiredo

A próxima vez que você ouvir alguém dizer que os negócios não têm lugar na arte – ou que a arte real é “pura” e livre de motivações comerciais – que o negócio corrompe a arte, lembre-se do exemplo do empresário mais bem-sucedido da história da arte: Andy Warhol.
Ser bom nos negócios é o tipo mais fascinante de arte”, disse Andy Warhol. “Ganhar dinheiro é arte e trabalhar com arte e gerar bons negócios é a melhor arte.”
Andy Warhol foi um artista plástico, pintor, empresário, cineasta e figura de destaque do movimento de pop art. Nascido no dia 6 de agosto de 1928, em Pittsburgh, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, seu nome de registro é Andrew Warhola. Seus pais eram imigrantes operários do nordeste da Eslováquia. Durante sua infância, Warhol teve uma doença no sistema nervoso que provocava movimentos involuntários das extremidades. Ele tornou-se um hipocondríaco, ao longo da vida, desenvolvendo um medo de hospitais e médicos. Quando estava doente, desenhava, ouvia rádio e colecionava imagens de estrelas de cinema. Mais tarde, Warhol disse que este período foi importante para desenvolver sua personalidade.
Quando se formou em Belas Artes em 1949, Warhol mudou-se para Nova York para seguir uma carreira super bem sucedida como artista comercial vendendo ilustrações de produtos para anunciantes e lojas de departamento. Warhol transformou o sistema consumista americano em sua maneira de fazer arte. Abraçou o capitalismo numa época em que muitos na esfera criativa o viam com ceticismo, ou com total hostilidade. Foi também nessa época que ele deixou cair o “a” no final do seu último nome para se tornar Andy Warhol. Claramente adorava sua fama, tornou-se um destaque nas famosas boates da cidade de Nova York, como Studio 54 e Max’s Kansas City. Comentando sobre a fixação de celebridades – a sua própria e a do público em geral – Warhol observou, “mais do que qualquer coisa, as pessoas só querem ser estrelas”.
Warhol de certa forma, previu o surto de obsessão das celebridades que estamos experimentando agora ao proferir sua icônica frase “ no futuro todos terão seus quinze minutos de fama” , que tornou-se com o advento da internet mais atual do que nunca. Todos querem de alguma maneira ser famosos ao menos por 15 minutos. Em 1964, Warhol abriu seu próprio estúdio de arte, um grande armazém pintado de prata conhecido simplesmente como “A Fábrica”. A Fábrica rapidamente se tornou um dos principais pontos culturais da cidade de Nova York, uma cena de festas pródigas frequentadas pelas socialites e celebridades mais ricas da cidade, incluindo o músico Lou Reed, que prestou homenagem aos trapaceiros e travestis que conheceu na The Factory com seu sucesso. canção “Walk on the Wild Side”
Ele também se ramificou em novas direções, publicando seu primeiro livro, Andy Warhol’s Index, em 1967 e na sequência nos anos 70, continuou a explorar outras formas de mídia e publicou outros livros como The Philosophy of Andy Warhol (De A para B e vice-versa) . Warhol também experimentou extensivamente videoarte, produzindo mais de 60 filmes durante sua carreira. Alguns de seus filmes mais famosos incluem Sleep, que mostra o poeta John Giorno dormindo por seis horas, e Eat, que mostra um homem comendo um cogumelo por 45 minutos.
Com todo esse sucesso, no entanto, a carreira próspera de Warhol quase terminou em 1968. Ele foi baleado por Valerie Solanas, uma escritora aspirante e feminista radical, em 3 de junho dentro da “fabrica” onde foi seriamente ferido neste ataque. Solanas apareceu em um dos filmes de Warhol e ficou chateada com ele por sua recusa em usar um roteiro seu escrito anteriormente. Após o tiroteio, Solanas foi presa e depois se declarou culpada do crime. Warhol passou semanas em um hospital de Nova York, recuperando-se de seus ferimentos e passou por várias cirurgias subsequentes. Como resultado das lesões que sofreu, ele teve que usar um espartilho cirúrgico para o resto de sua vida.
Warhol usou seus conhecimentos e técnicas de design para criar uma imagem que fosse facilmente reconhecível, mas também visualmente estimulante. Em 1962, o ano em que a Pop Art foi estabelecida como o mais recente movimento artístico, Andy Warhol começou sua transição da arte pintada à mão para a arte fotográfica com uma série de obras inovadoras. Enquanto essas peças imitavam um método mecânico de produção, elas eram de fato pintadas à mão. Esse conjunto de obras foi chamado simplesmente de Campbell’s Soup Cans e se tornaria uma das peças mais emblemáticas de sua carreira. As projeções das latas foram traçadas na tela e pintadas à mão, fazendo com que este primeiro e original “lote” de latas de sopa fosse uma obra que parecia mais uniforme e mecanicamente produzida do que realmente era. A essência da própria Pop Art . A primeira exposição das latas em Los Angeles na Ferus gallery , apesar da indiferença do público, causou sensação no mundo da arte. O debate sobre como a arte poderia se preocupar com algo tão cotidiano, e parece imitar a produção em massa comercial, garantiu que as pinturas recebessem muita atenção. Um comerciante de arte em uma galeria próxima vendeu latas de sopa , anunciando-as como mais baratas que as de Warhol. Ferus vendeu várias Soup Cans individuais, incluindo uma para seu amigo próximo, o ator Dennis Hopper, mas rapidamente reconheceu que elas deveriam ser vendidas como um set. Ele comprou de volta os poucos que havia vendido e concordou em pagar a Warhol $ 1000 ao longo de 10 meses para todos os 32 trabalhos. Após a morte de Warhol em 1987 (parada cardíaca em decorrência de uma cirurgia), Blum acabou vendendo o set para o Museu de Arte Moderna de Nova York por mais de 15 milhões de dólares.
Muitos críticos atribuem a preservação do conjunto como a chave para o sucesso das obras. “Isso fez com que fosse diferente; foi uma declaração”, escreveu a jornalista Sara McCorquodale em 2015: “O trabalho parecia falar do espírito de uma nova América, que abraçou completamente a cultura de consumo da nova década. As imagens da Campbell’s Soup Cans se tornaram tão icônicas que as socialites de Manhattan estavam usando vestidos com estampa de sopa para eventos da alta sociedade.” Muitos críticos marcam esta primeira exposição de Campbell’s Soup Cans como o ponto de virada na carreira de Warhol.
Bens de consumo e imagens de anúncios estavam inundando a vida dos americanos e Warhol começou a sutilmente a recriar essa abundância, por meio de imagens encontradas na publicidade. O artista britânico Richard Hamilton descreveu a pop art como “popular, transiente, descartável, de baixo custo, produzida em massa, jovem, espirituosa, sexy, enigmática, glamourosa, grande negócio”. Como o próprio Warhol colocou, “Uma vez que você ‘tenha’ pop, você nunca mais poderá ver um sinal da mesma forma novamente. E uma vez que você pensou pop, você nunca mais poderá ver a América do mesmo jeito.”
Em sua entrevista a Gretchen Berg em 1966, Warhol disse o seguinte sobre si mesmo: “Se você quer saber tudo sobre Andy Warhol, apenas olhe para a superfície…e lá estou eu. Não há nada por trás disso” (Powers, 2012). Certamente há algo a ser dito sobre como essa superfície reflete para nós o conhecimento sobre nós mesmos.
Warhol era tímido, um homem de poucas palavras e de certa forma marginalizado socialmente, porque muitos partiram do pressuposto errado de que ele não tinha nada para dizer. Todavia, estavam errados e o que Warhol nos tentou dizer é algo profundamente chocante, de que somos todos iguais e dentro dessa sociedade capitalista, vazios. Através dessas repetições iconográficas ele nos faz refletir, principalmente nos dias de hoje, quando o consumo desenfreado e hedonista se tornou a bola da vez.
Até a próxima.

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