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Dior versus Bihor: a guerra entre o pequeno vilarejo e uma das maiores marcas do mundo.

Hoje vou contar para vocês sobre duas tendências; a primeira delas é a apropriação cultural.  Como já falamos por aqui, a moda é cíclica, já que o nosso comportamento de compra se adapta à diferentes cenários a medida que somos impactados por mudanças sociais e econômicas.

 

Por exemplo, quando eu era mais nova (principalmente aqui no Brasil) era um pouco cafona comprar roupas em fast fashion (aquelas grandes magazines, que lá pelos anos 90, vendiam um pouco de tudo, geralmente posicionadas em ruas “menos nobres”). Quando me presenteavam com roupas dessas multimarcas, era tipo criança ganhar meia no Natal; você até agradecia, mas era bem difícil disfarçar a falta de empolgação.

 

Depois de um tempo, passou a ser legal. Quando alguém elogia nosso look, não temos problema nenhum em dizer “menina(o), é da C&A!”. Mostra que você é “esperto” de pagar menos, não é sinônimo de vergonha. Mostra que você ainda tem um bom olho de garimpar em uma fast fashion, uma peça que “não parece fast fashion”.  Estas lojas, hoje em dia, são belíssima e estão lado a lado de todas as grandes grifes. Se até Taylor Swift usa H&M (eu juro, eu e ela temos o mesmo conjuntinho de saia e cropped), por que você não vai usar?

 

Não faz muito tempo que a rede americana Forever 21, dona de lojas de metragem quadradas escandalosas, abriu aqui no Brasil. Filas e mais filas (para conseguir sequer entrar) naquele templo do consumo que oferecia preços baixíssimos por uma qualidade aceitável.

 

Pois é, agora chegamos a outro extremo; começamos a questionar esse consumismo exagerado, as condições de trabalho de quem produz essas roupas que chegam até nós a “preço de banana” e nossa própria identidade visual. Afinal, se todo mundo compra na Zara, acabamos todos com a mesma cara, não é mesmo?

 

Eis que surge um contra movimento chamado de slow fashion e, junto com ele, uma predileção por roupas das quais sabemos a procedência. Começamos a valorizar o consumo consciente, a autenticidade das peças e, por isso, culturas ricas em símbolos, rituais, histórias e trabalho artesanal ganham um foco tão grande na moda.

 

Eu mesma falo para todos os meus clientes que apropriação cultural (quando damos os devidos créditos) é a estratégia do momento; é muito legal dar valor às culturas locais através da globalização (ao invés de padronizar e todo mundo se vestir igual as Kardashians) espalhar inspirações através de diferentes apropriações estéticas que expressam histórias de culturas menos conhecidas pelo mundo. Se a Dior tivesse me contratado, eu teria falado exatamente isso e, portanto, apoiaria 100% a decisão da Maison francesa de usar as criações de Bihor (uma pequena região na Romênia com tradições belíssimas e únicas) como fonte de inspiração.

 

O único problema é que esqueceram de contar para eles que existe outra tendência que chama Transparência. A Transparência (que, inclusive, se apresenta até de maneira literal na moda atual) veio da mesma necessidade que temos de repensar a maneira como consumimos. Começamos a cobrar alguma responsabilidade social das marcas. O suco de fruta quer não tem fruta, animais maltratados por teste de maquiagem, trabalhadores abusados, colocando bilhetes de socorro em bolsos de calça jeans. Cansamos disto tudo.

 

E é exatamente neste quesito de transparência que A Dior errou (e errou feio) em sua coleção Pre Fall 2017. A semelhança é gritante (vulgo cópia idêntica) e as peças, vendidas por 30 mil euros (cerca de R$ 137 mil) não revertem nada para a comunidade que luta para manter a cultura viva.

 

O fato, porém, passou quase despercebido, até a reação da Beau Monde, uma revista de moda romena com conteúdo exclusivo para as produções locais. Uma verdadeira campanha de reconhecimento do desenho único e tradicional começou. Com frases inteligentes como “Não deixe a cultura sair de estoque” ou o trocadilho Haute “Culture”, a ação está fazendo barulho no mundo da moda. Com ajuda da publicação, peças originais de designers locais são vendidas online e revertidas para que a tradição seja preservada.

 

Fica aí a dica para quem quiser comprar peças belíssimas, autênticas e artesanais. Neste caso, em um mundo de falsificações, a boa notícia é que a original é bem mais em conta do que a cópia!

 

http://www.bihorcouture.com/products.php