Notícias

Home/Cultura/Michelângelo x Da Vinci e a capela Sistina

Michelângelo x Da Vinci e a capela Sistina

Após escrever semana passada sobre Leonardo da Vinci e sua obra prima Monalisa, me veio o desejo de continuar no período da renascença, e escrever hoje sobre o tão talentoso e magnífico artista Michelângelo e sua obra prima “a capela Sistina”.

Devo confessar que essa continuação se deve a lembrança da rivalidade vivida por esses dois gênios que desperta interesse nas mais variadas correntes de pensamento incluindo Sigmund Freud, que encontrou algumas semelhanças entre ambos: de um lado, os dois tinham dificuldade em lidar com a figura da mãe, ausente em suas infâncias. De outro, segundo o psicanalista, os dois eram homossexuais – Leonardo mais bem-resolvido, Michelângelo totalmente enrustido.
Eles foram para arte ocidental como catedrais. De personalidades distintas, constituíram juntos o que chamamos de cultura renascentista. A genialidade de ambos os fizeram criar obras de vasta importância cultural e histórica, deixando no mundo um legado de arte incomparável. Filhos da República de Florença, berço da cultura humanista no século XVI, Leonardo e Michelângelo eram contemporâneos, embora Leonardo fosse 23 anos mais velho que Michelângelo. Segundo relatos históricos a primeira desavença que fez nascer a rivalidade entre ambos se deu após a conclusão da escultura de David (possui cinco metros de altura) por Michelângelo. Um comitê então formado por artistas consagrados, entre os quais Botticelli, Perugino e o próprio Leonardo, receberam como incumbência decidir o local para a instalação da estátua de David. Leonardo deixando explícito seu incômodo acerca da nudez do Davi, se pronunciou dizendo que a escultura devia ser exibida “com ornamentos decentes”, e complementou com críticas à harmonia anatômica do mesmo, que considerava desproporcional. Talvez enciumado pelo esplendor que a obra despertaria em Florença, o criador da Mona Lisa sugeriu que a estátua fosse exibida nos fundos da Loggia dei Lanzi – espaço cerimonial no séc. XIV –, onde ficaria ofuscada perante outras esculturas da cidade. No fim a instalação do Davi se deu na Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio, sede do governo Médici. Numa outra ocasião quando
passava pela Piazza Santa Trinità, Da Vinci foi convidado por amigos para esclarecimentos sobre um trecho da obra de Dante. Por alguma razão, transitava ali perto Michelângelo, para o qual Leonardo não pestanejou em sugerir que elucidasse a questão. Tal comportamento soou irônico a Michelângelo dando a entender que o seu despreparo para responder repentinamente a indagação era para servir de chacota frente à coletividade da cidade. Ao invés de falar de Dante, Michelângelo dirigiu-se a Leonardo: “explica tu, que fizeste o desenho de um cavalo para ser moldado em bronze, mas foste incapaz de moldá-lo”. A resposta foi uma estocada no ego inflado do pintor, pois tocou num ponto sensível de sua trajetória. De fato, Da Vinci se empenhou em executar um monumento de um cavalo quando esteve em Milão. Porém, devido à invasão francesa em 1494, o metal que serviria de matéria-prima foi destinado à fabricação de armas. O episódio da Piazza Santa Trinità pode ter criado um abismo entre estes mestres da arte.

A Batalha final

Em 1504, a cidade de Florença, berço da Renascença, estava em polvorosa com o que se chamou de “a batalha das batalhas”. A notícia que corria de boca em boca era que o jovem artista Michelângelo Buonarroti de 29 anos tinha aceitado o convite para pintar uma cena de guerra numa das paredes do Palazzo della Signoria que era a sede do governo florentino, na época. Até aí, nada tão relevante pela genialidade do artista, mas o detalhe bombástico mesmo foi de que o mesmo convite tinha sido feito, um ano antes, a outro grande artista, Leonardo Da Vinci, de 51 anos. Leonardo aceitara a encomenda e já havia até montado seu andaime na parede oposta àquela posteriormente oferecida a Michelângelo. Pense nesse confronto como se os físicos Isaac Newton e Albert Einstein tivessem vivido na mesma época, na mesma cidade, e a prefeitura tivesse chamado ambos a medir forças realizando o mesmo teste de matemática. É claro que Florença se tornou pequena demais para dois gênios com aquela estatura. E é lógico também que os florentinos ficaram eletrizados com a expectativa de qual dos dois iria realizar a melhor pintura épica. Florença e o mundo jamais ficaram sabendo qual dos dois venceria o desafio. É que ambos interromperam seus trabalhos no Palazzo della Signoria entre 1505 e 1506. Aparentemente, os motivos da desistência de ambos foram alheios à competição. Mas quem garante que não tenham também, de alguma forma, em algum momento, amarelado? Pois é, caro leitor, atrás dos gênios e dos mitos existem homens – que amam, invejam, cometem deslizes e sentem medo e raiva como qualquer um de nós, pobres mortais.

Após esse evento cada um seguiu seu caminho e Michelângelo foi convidado a pintar a capela Sistina considerada por muitos sua obra prima.

Em 1508, o Papa Júlio II encarregou o artista de decorar a “abóbada da Capela Sistina”,( o nome se deve ao papa Sisto VI )na Catedral de São Pedro, em Roma. Na época Michelângelo exclamou: “Não sou pintor, sou escultor”. Seus protestos de nada valeram, e durante quatro anos realizou esse exaustivo trabalho, que resultou em 300 figuras. Na abóbada, de 40 metros de largura por 13 de altura, move-se uma multidão de figuras, umas sentadas, outras flutuando. A pintura no teto da Capela Sistina é considerada a obra mais perfeita e detalhada criada por Michelângelo é um dos maiores tesouros artísticos da humanidade. O artista utilizou a técnica de pintura afresco em que a pintura é feita sobre uma argamassa de cal e areia.

Michelângelo demorou quatro anos para terminar esse trabalho e o fez com grande dificuldade, pois teve que trabalhar deitado em cima de um andaime de 16 metros de altura e pintar sobre sua cabeça. Isso fazia que a tinta pingasse em seu rosto o dia todo. Ao final do dia, ele tinha cãibras a tal ponto que mal conseguia ler as cartas que seus familiares lhe enviavam. Um dia Quando ele estava pintando um canto escuro do teto com extraordinário afinco e esmero, alguém lhe perguntou: “Por que você se esforça tanto a pintar um canto escuro do teto, que possivelmente ninguém olhará”, Michelângelo simplesmente respondeu: “Deus verá”.No pontificado do papa Paulo III, em 1534, Michelângelo é convidado a voltar à Capela Sistina para pintar, na parede logo atrás do altar, um afresco de tema O Juízo Final. Essa pintura levou sete anos para ser feita. O artista pagou um preço altíssimo por esses anos de trabalho. Sua visão ficou reduzida e desgastou-se muito. Michelângelo relatou que, quando, com apenas 37 anos, terminou seus trabalhos na Capela, “seus amigos se impressionaram com o homem velho que ele se tornara”.

Embora com todas as suas diferenças, desavenças e conflitos, a rivalidade só fez o trabalho de Michelângelo e Leonardo crescer.

As obras deles se tornaram eternas – e esta é a marca do gênios.

Até a próxima

Patricia Figueiredo