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Vaidade, um sinal do nosso tempo

Por João Libério

Tomemos a vaidade como o cuidado exagerado da aparência, pelo prazer ou com o objetivo de atrair a admiração ou elogios de terceiros. Traduz-se numa necessidade de se vangloriar, de ostentar, de se exibir. Porém, é um conceito que nunca esteve tão em voga. Muito graças às selfies, que vieram trabalhar o ego de forma ímpar.
Como bem sabemos, a vaidade é algo inútil, frívola, vazia e sem valor. Também pode significar orgulho e ostentação, exibição exagerada da riqueza. Podemos cair em vaidade tanto por ter orgulho no nosso cuidado com o corpo, como por ter orgulho nas nossas qualidades e capacidades intelectuais. O nosso cuidado com a aparência não vai tornar-nos nem mais, nem menos justos. Não é errado arranjarmo-nos, aperaltarmo-nos (nos arrumar), mas isso não deve ser o mais importante na nossa vida. O nosso orgulho não deve estar nem na nossa aparência, nem na opinião que as pessoas têm de nós. Se tal acontecer, estamos perante a vaidade. Somos realmente vaidosos!
E não se pense que a vaidade seja “ministério” das mulheres. No universo masculino, a vaidade também tem vindo a ser exacerbada, graças às novas tendências que têm vindo a surgir, como a do ubersexual, que faz referência a um comportamento vaidoso, moderno, sofisticado, com muito estilo. O ubersexual é aquele indivíduo que cuida da sua aparência e gosta se se destacar, aparecer. Logo, traz vaidade so homem.
Pela definição dada no dicionário, encontramos indícios que colocam a vaidade como característica do nosso tempo e a identificam como algo negativo, que deturpa a busca de um comportamento moralmente aceitável. Porém, hoje em dia, grande parte da comunicação de marcas tem vindo a contrariar tal, com mensagens a dizer que vaidade pode ser algo positivo, pois significa amor próprio, gostar de nós próprios, valorizar as nossas qualidades, cuidar da nossa aparência, buscar auto-afirmação. Não é isso que vemos constantemente nos anúncios televisivos? Mas é exatamente aqui que reside um problema: o senso comum passou a confundir vaidade com virtude…
Segundo Yves de La Taille, reconhecido estudioso da psicologia do comportamento moral da Universidade de São Paulo, “o conceito de vaidade é estranho à dimensão moral, pois não faz sentido dizer que alguém é generoso ou justo por vaidade”. Ora, uma pessoa vaidosa atribui valor às aparências, não às virtudes. Por conseguinte, o vaidoso cuida de forma excessiva do espetáculo de si mesmo, pois para ele é primordial que convirjam para si o olhar e a admiração de terceiros. E o outro é reconhecido e apreciado pela possibilidade de ser um adulador capaz de expressar elogios, um espectador passivo que aplaude e reconhece a identidade superficial do vaidoso.
De facto, se prestarmos atenção aos constantes apelos publicitários, se nos apercebermos dos diversos conteúdos implícitos que “comandam” o consumo, se analisarmos as razões que levam milhares de homens e mulheres a realizar intervenções cirúrgicas nos seus corpos por motivos meramente estéticos, então chegamos à conclusão de que, realmente, a vaidade se traduz na grande evidência do nosso tempo.

E está nas nossas mãos contrariar isso. A vaidade, em si, pode não ser 100% ruim. Ela faz com que cuidemos de nós mesmos, que tenhamos vergonha de estamos sujos ou malprontos. Ou seja, um pouco de vaidade até nos faz bem. Na dose certa, ela leva-nos, por exemplo, a praticar ginástica para ter um corpo mais saudável ou a nos vestirmos de uma forma que permita que nos sintamos bem connosco próprios. Faz com que tenhamos um cuidado saudável com a imagem que nós passamos aos outros. O problema começa com o exagero. Não devemos nunca nos achar superiores aos outros por causa da nossa aparência. Nem julgar os outros pela aparência deles. Tenhamos presente que quanto nos arranjamos (arrumamos), tal não nos torna melhor nem pior do que as outras pessoas. Não deixemos, então, que a vaidade comande a nossa vida, que fique acima de qualquer coisa…